Ter um bom projeto, uma pontuação alta e um histórico de serviços prestados à comunidade deveria ser o passaporte carimbado para a aprovação em qualquer edital público. No papel, a meritocracia é linda. Na prática, há casos que revelam uma ferida aberta: a técnica, sozinha, muitas vezes sucumbe diante da falta de "traquejo político" do proponente (?) e da "miopia" seletiva dos responsáveis pelo processo.
Recentemente, um certo projeto alcançou excelente resultado. No entanto, o que separa uma região, como o Sertão, da execução do recurso não é a qualidade da proposta, mas a conivência com interesses extra-musicais. Quando a comissão aceita a inscrição de um proponente de natureza jurídica diversa (tipo MEI) em uma categoria onde o edital proíbe expressamente essa modalidade, ela não está apenas cometendo um equívoco administrativo; ela está protegendo o status quo.
Se até uma semana antes o sistema bloqueava as inscrições MEI, como alguém conseguiu passar como finalista exatamente sob essa condição?
O edital não foi retificado, logo deveria está vigorando o impedimento para essas inscrições naquela categoria específica. Contanto, aos 45 do segundo tempo o sistema parece ter sido liberado, zombando da cara dos incautos que tentaram acesso dezenas de vezes no período regular de inscrição e não conseguiram.
Algo mudou e com certeza foi para atender gente com informação privilegiada que se beneficia do conflito de interesses.
Vencer os "privilegiados de sempre" -- geralmente grandes grupos com livre trânsito nos gabinetes -- exige mais do que saber escrever projetos. Exige o que se chama de traquejo político.
Cidades mais distantes do grande centro recebem as migalhas do fomento cultural às bandas de música. O edital prevê a "desconcentração regional", mas essa cláusula costuma ser tratada como mera sugestão, e não como uma obrigação legal. Sem a pressão política, a situação passa batida e o Sertão continua sendo apenas cenário de cartão-postal, sem investimento expressivo na sua cultura de música instrumental, especificamente das tradicionais filarmônicas/bandas civis.
Concluímos então que não basta ser bom na elaboração da proposta. É preciso aprender a jogar o "jogo" político, senão continuar participando desse tipo de concurso será em vão, pois só servirá para legitimar um processo que premia os três ou quatro privilegiados de sempre.






