segunda-feira, 7 de setembro de 2026

FERNANDO E ISAURA: A CIDADE DE PIRANHAS NA OBRA DE ARIANO SUASSUNA

⚠️ ALERTA DE SPOILER
O texto a seguir revela detalhes importantes do enredo e o desfecho da obra. Isso, porém, não substitui a experiência da leitura na íntegra. Na tradição da tragédia clássica e do romanceiro popular, a força da obra não reside na surpresa do final, mas na riqueza da linguagem, no lirismo da prosa e na atmosfera única do ambiente transformado -- elementos que só podem ser plenamente vivenciados no contato direto com o texto original.



Lançada em 1994 pelas Edições Bagaço (Recife) e descrita como “a primeira empreitada de Ariano Suassuna no campo da prosa de ficção e [...] uma espécie de exercício para a posterior criação do Romance d’A Pedra do Reino”, A História do Amor de Fernando e Isaura (composta em 1956) é uma recriação da lenda medieval Tristão e Isolda¹.


Na versão nordestina, a cidade de Piranhas (AL) ganha um relevo dramático fundamental. Longe de ser apenas uma locação secundária, surge no romance como o cenário do exílio, da tentativa de recomeço e do ápice da tragédia que encerra a vida de Fernando.


Após a descoberta da traição e o conturbado período vividos na fazenda São Joaquim (em Piaçabuçu) e na cidade de Penedo, Fernando recebe uma carta de recomendação enviada por seu tio Marcos, o corno proprietário da fazenda, para ir trabalhar em Piranhas.


Localizada no Alto Sertão Alagoano, a cidade é escolhida por Marcos justamente por ser o ponto “mais longe possível” daquelas terras do Baixo São Francisco, último porto antes da Cachoeira de Paulo Afonso. A cidade representa o isolamento geográfico e o esforço de empurrar a dor do passado para além das curvas do rio.


É aqui que Fernando tenta reconstruir sua vida, conhece outra mulher também chamada Isaura e se casa, buscando numa nova identidade doméstica apagar a lembrança da primeira Isaura (esposa de Marcos). No entanto, o passado não permanece sepultado no litoral e logo desembarca nas margens sanfranciscanas de Piranhas através da navegação comercial. Em um jantar festivo para recepcionar um barqueiro amigo que subira o Rio São Francisco, o comerciante Romão provoca Fernando revelando publicamente seu segredo. O entrevero resulta em briga: Romão esfaqueia Fernando, que reage desarmando e matando o provocador.


Gravemente ferido, Fernando pede todos os dias para ser levado ao alto do morro (onde fica a Igrejinha do Bonfim). Daquele ponto elevado, que descortina as curvas e os cânions do São Francisco, o protagonista contempla o horizonte à espera da embarcação que trará sua verdadeira amada vinda da fazenda São Joaquim para o último adeus.


Vista aérea da Igreja do Bonfim (Fonte:Web)

A cidade se torna o testemunho final da “solidariedade mórbida dos apaixonados”. Sete dias após o ferimento, a primeira Isaura finalmente chega pelo rio, mas encontra Fernando já morto. No alto de Piranhas, tomada pelo desespero, Isaura toca a ferida do amado com um punhal e o crava no próprio peito. Sabendo da desgraça ocorrida, Marcos viaja para vir recolher os corpos, levando-os de volta para o sepultamento sob o cajueiro da fazenda São Joaquim, em Piaçabuçu.


Na estrutura dramática montada por Suassuna, Piranhas é o cume espacial de onde se avista o rio e o próprio destino. A cidade eleva a trama do plano terreno ao plano mitológico: o morro de Piranhas funciona como uma espécie de promontório² épico de onde o herói moribundo vigia o São Francisco, transformando o rio em uma artéria vital por onde a morte e o amor derradeiro navegam.


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Cf.: SUASSUNA, Ariano. A história do amor de Fernando e Isaura. Ilustrações de Manuel Dantas Suassuna. Recife: Editora Bagaço, 1994.


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¹ A lenda de Tristão e Isolda nasceu no folclore celta entre os séculos X e XI, alimentada pela tradição oral de povos celtas e pictos na Grã-Bretanha, Irlanda e na Bretanha francesa. Sua estrutura narrativa deriva em grande parte da mitológica lenda irlandesa de Diarmuid e Gráinne, na qual um jovem guerreiro foge com a noiva do próprio líder. A partir do século XII, com a expansão da literatura cortês europeia, a história começou a ser registrada por escrito por poetas franceses e normandos. Esse período consolidou duas correntes principais: a versão vulgar de Béroul, marcada por um tom mais cru e violento, e a versão cortês de Thomas da Bretanha, centrada no sofrimento psicológico e no ideal do amor trágico. Com o tempo, a narrativa ganhou a Europa e foi reescrita em alemão por Gottfried von Strassburg — obra que séculos mais tarde inspiraria a célebre ópera de Richard Wagner. Devido à sua enorme popularidade, a lenda acabou incorporada ao ciclo arturiano, transformando Tristão em um dos Cavaleiros da Távola Redonda do Rei Artur.


² Elevação rochosa ou terreno alto e íngreme que avança diretamente sobre o curso d'água, provocando uma curva acentuada no leito do rio (meandro) ou afunilando a sua passagem.



quarta-feira, 26 de agosto de 2026

MUNDAÚ TRIO ENCERRA PROGRAMAÇÃO ESPECIAL NO CORAÇÃO DO CENTRO HISTÓRICO DE PIRANHAS


O patrimônio arquitetônico e cultural de Alagoas foi o cenário de um encontro marcante entre tradição popular, literatura e música instrumental. Localizada no coração do Centro Histórico de Piranhas, emoldurada pelos casarios seculares e pela beleza do Velho Chico, a Academia Piranhense de Letras e Artes (APLA) reuniu diversas manifestações culturais em uma rica celebração pelo Dia do Folclore (22/8). O encerramento da festividade ficou por conta do Mundaú Trio, com o projeto de extensão "Circulação Vibrafone e Raízes", vinculado à Escola Técnica de Artes (ETA) da Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

A iniciativa busca descentralizar o acesso às artes, promovendo apresentações gratuitas de alto nível técnico e artístico fora dos grandes centros e conectando a produção acadêmica aos cenários históricos e culturais do interior do estado.

Uma tarde de celebração às tradições populares

Antes de a sonoridade contemporânea do trio instrumental ocupar o charmoso espaço no centro histórico piranhense, a programação na APLA prestou uma verdadeira homenagem à diversidade e ao patrimônio imaterial da região. O público pôde prestigiar expressivas manifestações locais:

  • Pastoril da Casa: Resgatando a magia e o encanto do folguedo tradicional, o grupo trouxe as cores e os cantos característicos dessa importante expressão da cultura nordestina.
  • Bloco Infantil Os Trovoletas: Levando alegria, vivacidade e promovendo a formação de plateia desde a infância, o bloco oriundo da fusão dos centenários Trovadores e Borboletas, marcou presença garantindo a participação dos pequenos na celebração folclórica.
  • Samba de Tebei da Comunidade Quilombola Lages: Uma das mais profundas e autênticas manifestações da resistência e identidade cultural do município, o grupo do Quilombo Lages preencheu o ambiente com sua ancestralidade, ritmo e tradição oral.

O encerramento com a sonoridade do Mundaú Trio

Após as marcantes apresentações populares, o Mundaú Trio subiu ao palco para coroar o evento em grande estilo. O projeto Circulação Vibrafone e Raízes, idealizado e coordenado pelo professor Augusto Moralez (UFAL), ao lado dos músicos Thiago Celmir e Maglione Santos (ambos egressos da universidade), o trio apresentou um repertório que dialoga com os ritmos regionais sob uma perspectiva instrumental vibrante.

Dentre os destaques do concerto, sobressaem-se:

  • Protagonismo do Vibrafone: O instrumento de percussão melódica, raro em apresentações abertas no interior, encantou os presentes com seus timbres únicos no ambiente histórico da APLA.
  • Circulação Territorial: Piranhas integra o roteiro do projeto ao lado de Pilar, Marechal Deodoro e Maceió, promovendo o intercâmbio cultural em diferentes regiões alagoanas.
  • Diálogo entre Tradição e Extensão Universitária: A integração com as atrações folclóricas locais e a parceria na divulgação com entidades tradicionais, como a Filarmônica Mestre Elísio, demonstraram a força da união entre a universidade, a APLA e as comunidades do sertão.

O evento no coração do Centro Histórico de Piranhas reafirmou a importância de manter vivas as raízes folclóricas ao mesmo tempo em que se abrem caminhos para novas linguagens musicais na cena cultural do interior alagoano.  


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

17/8. DIA NACIONAL DO PATRIMÔNIO

GALERIA DA OFICINA TÉCNICA E PRÁTICA DE BANDA COM O MAESTRO JORGE TROMPETE