sábado, 7 de fevereiro de 2026

O MAESTRO E O CAPELÃO

O MAESTRO E O CAPELÃO

 

A história da colaboração entre o Maestro José Emiliano de Souza (1858-193?) e o Padre José Nicodemos da Rocha (1883-1936) no início do século XX é, de fato, um capítulo relevante na história das bandas de música locais.

Padre Nicodemos, coadjutor da Paróquia Santíssimo Coração de Jesus, no município de Pão de Açúcar, foi capelão em Piranhas pouco depois de sua ordenação sacerdotal, em 1903. Três anos depois, substituiu interinamente o pároco Antônio José Soares de Mendonça (1827-1906). No mesmo ano, foi designado administrador paroquial de Nossa Senhora da Conceição, em Água Branca.

O Maestro José Emiliano de Souza, professor de  Primeiras Letras e músico compositor, natural de Pão de Açúcar, atuava em Piranhas nessa época e compunha regularmente para o ofício religioso da Capela de Nossa Senhora da Saúde. Além disso, regia a banda nos festejos, uma banda que os jornais da época chamavam de “philarmonica piranhense”.

O número 23/1905 do jornal católico A Fé Christã nos oferece este relevante testemunho da colaboração de ambos:

“Com grande concurso de pessoas encerrou-se o Mês Mariano nesta vila, sendo o ato revestido do maior brilhantismo e pompa religiosa. Os habitantes de Piranhas e seus arredores afluíam desde o alvorecer, tirando longas jornadas, a fim de assistirem com a atenção que é peculiar aos habitantes destas plagas, à missa cantada pelo Revmo. Pe. José Nicodemos, na qual se exibiu a orquestra, hábil e competentemente regida pelo maestro José Emiliano, que nos deliciou com um Credo, primorosa composição sua.”

Em 1911, já bem estabelecido em Água Branca, Padre Nicodemos, que possuía sólida formação musical, não abriu mão da colaboração do Mestre José Emiliano e o levou para a sua Escola Paroquial, recém-criada naquela cidade com o apoio do Coronel Ulisses Luna. Da mesma forma, o colega músico João Ribeiro do Valle foi contratado para o ensino de Primeiras Letras.

João Ribeiro foi empregado pelo empresário Delmiro Gouveia, em 1915,  na banda da Companhia Agro Fabril Mercantil (Fábrica da Pedra) — a banda mais bem estruturada do sertão alagoano.

Sete anos mais tarde, vemos o maestro José Emiliano em Piranhas celebrando a imagem de Santa Cecília, nicho à direita da padroeira Nossa Senhora da Saúde, quando foi entronizada no altar-mor em 22 de novembro de 1922. Nesse dia, foi realizada uma recepção solene à imagem barroca. Um estrado foi montado na nave lateral da igreja para que os músicos pudessem fazer as honras à sua padroeira.

O último remanescente da rica atividade musical das primeiras décadas do século era a partitura autógrafa da Missa composta pelo maestro no início do século, provavelmente encomendada por Padre Nicodemos, pois o autógrafo destacava ambas as cidades de Piranhas e Água Branca.

Enquanto o ano de 1922 marca o último registro reconhecido da atuação de José Emiliano de Souza em Piranhas, seu amigo padre-músico José Nicodemos da Rocha ainda viveu mais catorze anos de seu prolífico paroquiato de quase três décadas, até seu falecimento em Água Branca no ano de 1936.

Consultado em outubro de 2013 sobre as bandas, músicos e o repertório do seu tempo de infância, o flautista conterrâneo Egildo Vieira (1947-2015), discípulo dos mestres Nemésio Teixeira (1904-1978) e Elísio José de Souza (1911-1978), mencionou que essa Missa era ainda tocada nos anos 60 e revelou que parte do acervo musical de José Emiliano foi herdado por Mestre Elísio.


F. Ventura (2025)

Texto publicado originalmente na III Antologia do Encontro de Escritores e Leitores Piranhenses & convidados / Organização de Fabrine Morais; Prefácio de Tinho Santana.
Aracaju: Brasil Casual, 2025. pp. 42-43.


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

DIVACY PEREIRA - Nota de Pesar e Gratidão

Divacy Pereira do Nascimento
É com profundo pesar que comunicamos o falecimento de um dos nomes históricos da música instrumental da cidade de Piranhas: Divacy Pereira do Nascimento, ocorrido aos 75 anos na cidade de Serra Talhada. A partida de Divacy ocorre em uma data de grande simbolismo: no exato dia em que nossa instituição celebra o 36º aniversário de sua reativação. 

Filho de Hercílio Pereira e Alzira Silveira Pereira, Divacy carregava no sangue a herança de alagoanos de Piranhas. Sua trajetória foi, acima de tudo, uma vivência familiar e comunitária. Na antiga formação da banda, ele dividiu a estante com seu tio, o trombonista Elias Silveira, e os primos Toinho "de Expedito", trompetista, e Egildo Vieira, clarinetista.

Divacy foi um dos iniciados em música por Mestre Elísio em meados da década de 1950. Naquela época, ele empunhava o clarinete naquela bandinha mantida abnegadamente pelo maestro, trompetista e sapateiro pernambucano de Jatobá. Com a desativação da ferrovia e da banda, a família de Divacy estabeleceu residência em Petrolândia/PE. Lá, integrou com destaque a Banda Musical Adolfo Alexandre de Melo (fundada em 1938).

Em 4 de fevereiro de 1990, cerca de doze anos após o falecimento do Mestre Elísio (ocorrido em Delmiro Gouveia/AL), a música voltava a respirar em sua plenitude em Piranhas, a "Lapinha do Sertão". Na inauguração da Escola de Música Mestre Elísio, Divacy, saxofonista tenor, foi um dos protagonistas desse momento antológico; um dos seis baluartes da formação da década de 1950 que se reuniram para honrar o legado do mestre: Elias Silveira (trombone), Augusto José Neto "Bujão" (bombardino), Afonsinho e Natalício, percussionistas. O renomado flautista Egildo Vieira também esteve no evento. 

Á esquerda, Mestre Bubu, de branco, e o saxofonista Divacy Pereira.
(Arquivo: Família Fernandes Fontes, 1991)

Mesmo residindo em Pernambuco, Divacy cruzou as divisas de Alagoas para reforçar nossas fileiras nas festas da padroeira de 1990 a 1994 junto aos colegas de Petrolândia Etinho (trombone), Miguel e Jardiel (trompetes). 

Ele nos deixa hoje no dia do nosso aniversário, lembrando-nos que uma filarmônica é feita de sons, de memória e lealdade. Até há pouco tempo, Divacy era o último remanescente ativo daquela banda histórica das décadas de 1950 e 1960.

À família e aos amigos de Petrolândia e Piranhas, nossos mais sinceros sentimentos.

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Mais informações em: 

https://www.oxentenews.com.br/2026/02/nota-de-falecimento-petrolandia-pe.html#google_vignette

https://www.assisramalho.com.br/2026/02/petrolandia-corpo-de-divacir-ja-chegou.html

https://www.instagram.com/p/DUWgkuvkp_x/



4/2. DIA DA FILARMÔNICA MESTRE ELÍSIO

Banda do Mestre Elísio (s.l.; s.d.)

Elísio José de Souza (1911-1978)
Mestre Elísio José de Souza (1911-1978)



sábado, 24 de janeiro de 2026

FESTA DA PADROEIRA 2026


Fé e Tradição: Piranhas Celebra Nossa Senhora da Saúde

A comunidade paroquial de Piranhas, Alagoas, inicia hoje um dos períodos mais significativos do seu calendário religioso: a festa da padroeira, Nossa Senhora da Saúde. Sob o tema inspirado na passagem bíblica "A esperança não decepciona" (Rm 5,5), o evento convida os fiéis a um tempo de renovação espiritual e oração.

O Itinerário da Fé

O novenário começa neste sábado, 24 de janeiro, e estende-se com celebrações diárias até o dia 1º de fevereiro. As novenas e missas ocorrem pontualmente às 19h e 19h30, respectivamente.

A programação foi cuidadosamente dividida para envolver todos os setores da sociedade piranhense:

  • Abertura (24/01): O início é marcado por uma procissão motorizada saindo da Matriz de São Francisco às 18h. Os homenageados da noite são os motoristas, motociclistas, ciclistas e as forças de segurança (Polícia Militar, Civil e Guarda Municipal)
  • Tradição Musical: A primeira noite será musicada pela Filarmônica Mestre Elísio. O grupo possui um vínculo histórico com a festividade, sendo responsável por entoar os cânticos litúrgicos da celebração há exatos 26 anos. (Este é o 37º ano de participação da banda municipal.)
  • Setores Sociais e Econômicos: Ao longo das noites, grupos específicos assumem o papel de noiteiros, incluindo pescadores e aposentados, comerciantes, hotéis e pousadas, além da representação dos poderes públicos e da Academia Piranhense de Letras e Artes (APLA)
  • Movimentos Eclesiais: Grupos como o Terço dos Homens, Renovação Carismática Católica (RCC), Pastoral Familiar, Mães que Oram pelos Filhos também possuem datas dedicadas ao longo da semana.

Integração com a Comunidade

Um ponto alto da festa é a participação das diversas localidades que compõem o município. Moradores do Distrito Piau, Entremontes, Salinas e diversos assentamentos, como Antônio Conselheiro e Karl Marx, são convidados especiais para as celebrações. Os bairros da cidade, desde o Centro Histórico até as Vilas Sergipe e Alagoas, também integram o corpo da festividade.

O Dia Solene: 2 de Fevereiro

O encerramento da festa acontece na segunda-feira, dia 2 de fevereiro, data litúrgica da Apresentação do Senhor. A programação solene inclui:

  • 10h: Missa Solene
  • 16h: Missa Solene seguida de Procissão pelas ruas do Centro Histórico
  • Encerramento: Bênção do Santíssimo Sacramento e o tradicional Festival de Prêmios.

Coordenação: Pároco Pe. José Walter da Silva Santos Filho; Vigário Pe. José Paulo Pereira da Silva.

Mais informações: https://www.instagram.com/paroquia_piranhas 

https://facebook.com/100066466659544/

terça-feira, 11 de novembro de 2025

22/11: DIA DO MÚSICO

O dia 22 de Novembro é uma data de proeminente relevância no panorama cultural e educacional, sendo formalmente designado como o Dia do Músico. Esta efeméride não se restringe a um mero reconhecimento profissional, mas constitui um ponto de convergência entre tradição hagiográfica, manifestação artística e a complexa tessitura da produção cultural.

A seleção desta data remonta à celebração de Santa Cecília de Roma, virgem e mártir cristã, cuja devoção se estabeleceu nos primórdios da Igreja. A associação de Santa Cecília à arte musical foi consolidada e institucionalizada em 1594, quando o Papa Gregório XIII a proclamou oficialmente a Padroeira dos Músicos. O referencial simbólico para esta patronagem reside nas narrativas que descrevem a mártir cantando louvores a Deus ("Cantantibus organis, illa in corde suo soli Domino decantabat") mesmo em meio ao seu martírio. Este ato de persistente devoção sonora estabeleceu-a como o ícone da fé inabalável manifestada através da melodia, conferindo à data um profundo significado para a classe musical.

Em uma perspectiva contemporânea e acadêmica, o Dia do Músico direciona a reflexão para o papel multifacetado do musicista como agente cultural e intelectual: 
  • Agente de Patrimônio: O musicista é o principal transmissor do patrimônio imaterial, atuando na interpretação de obras históricas e na criação de repertórios vanguardistas. Ele é fundamental na preservação e na evolução das tradições musicais.
  • Educação Musical e Cognição: A formação em Artes Musicais, ministrada em conservatórios e universidades, sublinha a alta complexidade técnica e teórica da profissão. O educador musical, em particular, desempenha um papel crucial no desenvolvimento cognitivo, motor e socioemocional de indivíduos em diversas faixas etárias.
  • Produção Estética e Social: O profissional da arte sonora contribui diretamente para a produção estética da sociedade, operando em esferas que vão desde a composição erudita até a produção fonográfica de massa. Sua atuação é vital para a coesão social e para a crítica cultural, fornecendo a "trilha sonora" para a experiência humana.

O dia 22 de Novembro é o momento de refletir sobre a música e a contribuição fundamental dos músicos. É um momento oportuno para que a comunidade acadêmica e as instituições culturais reavaliem e fomentem políticas de apoio e reconhecimento à arte sonora, garantindo a sustentabilidade e a excelência dos estudos em Musicologia, Composição e Performance.


sexta-feira, 24 de outubro de 2025

domingo, 5 de outubro de 2025

O Galope da Imaginação: "Cavalo de Flecha" na Infância Nordestina e na Obra de Egildo Vieira


A ligação entre a brincadeira do "Cavalo de Flecha" com a macambira e a música homônima de Egildo Vieira é a materialização perfeita da busca pela arte erudita que bebe na fonte da cultura popular nordestina.

Egildo Vieira (1947–2015), flautista e ex-integrante do Quinteto Armorial, era mestre em traduzir o sertão em música e instrumentos. A sua composição "Cavalo de Flecha" é um exemplo vívido dessa ponte cultural.

O Encontro do Lúdico Popular com a Arte Armorial

A associação entre a brincadeira e a música se dá em três níveis: o simbólico, o rítmico e o instrumental.

1. Nível Simbólico: A Temática do Sertão

Assim como a brincadeira é uma reinterpretação da vida rural (o cavalo do vaqueiro, a caça do arqueiro) usando recursos da Caatinga (a haste floral da macambira), a música de Egildo Vieira faz o mesmo no campo sonoro.

A obra "Cavalo de Flecha" é classificada no estilo Romance e Galope, buscando inspiração nas toadas de cantadores, nos cocos e no ritmo das cavalhadas e dos romances medievais que se mantiveram vivos no Nordeste.

A música evoca a força do cavalo (o galope ritmado) e a velocidade da flecha (a precisão melódica), traduzindo em arte erudita a simplicidade da corrida da criança pelo quintal com sua haste de macambira.

2. Nível Instrumental: O Ariano e os Materiais Rústicos

A peça é notável por ser frequentemente executada no Ariano, um instrumento inventado pelo próprio Egildo Vieira, em homenagem a Ariano Suassuna. O Ariano é um dos pontos mais fortes de conexão com a brincadeira:

Elemento da Brincadeira Elemento da Música Conexão
Haste da Macambira Instrumentos de Egildo Ambos utilizam materiais naturais e rústicos da região (taquaras, cabaças, quenga de coco) para criar arte.
Brinquedo Feito à Mão Ariano (Instrumento Inovador) Representam o saber-fazer tradicional (luthieria rústica) levado à excelência artística.

O Ariano é um instrumento de cordas baseado no Marimbau e utiliza cabaças como caixa de ressonância. Ele confere à música um timbre singular, profundo e percussivo, que reforça o caráter regional e rústico da composição.

3. Nível Rítmico: O Romance e o Galope

A estrutura da música em "Romance e Galope" reflete o movimento dual da brincadeira:

  • Romance: Traz a melodia e a narrativa épica, lembrando as histórias de cavalaria e bravura (o cavaleiro).
  • Galope: É a parte mais essencialmente percussiva da música, simbolizando o ritmo da corrida do cavalo e, metaforicamente, o pique da criança a brincar. O ritmo vibrante do Ariano e da percussão criada por Egildo (também com materiais rústicos) reproduz a cadência do galope do animal pelo sertão.

Assim, "Cavalo de Flecha" é um ciclo completo que celebra a cultura material e a imaginação infantil do Nordeste, elevando um simples brinquedo feito da planta da Caatinga a uma composição de arte sonora, conforme o ideal armorial.

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Macambira-de-flecha é um termo popular e regional, sem validade botânica, que se refere à haste floral seca e resistente da planta macambira (gênero Bromélia, comum no Nordeste do Brasil), quando esta haste é empregada por crianças na fabricação artesanal de brinquedos, como flechas ou o "cavalo" de uma brincadeira. O termo destaca a função lúdica e a utilização prática dessa parte específica da planta na cultura infantil do sertão.

sábado, 23 de agosto de 2025

UMA RIVALIDADE DOURADA: CORNET (PISTOM) VS. TROMPETE



A palavra pistom é frequentemente usada como um sinônimo para o cornet ou cornetim, que na língua francesa é chamado de cornet à pistons (corneta de pistões).

O cornet é um instrumento de sopro da família dos metais, assim como o trompete. A grande diferença é o formato do tubo: o trompete tem uma tubagem mais cilíndrica; o cornet tem uma tubagem mais cônica.

Essa diferença no formato do tubo dá ao cornet um som mais suave, menos brilhante e mais fácil de tocar que o do trompete, especialmente nas notas mais graves.  Em algumas regiões e épocas, o termo pistom se referia especificamente ao cornet, que era muito popular nas bandas de música e orquestras. No Brasil, historicamente, a palavra pistom foi usada para ambos os instrumentos.

Uma Rivalidade Dourada: Cornet (Pistom) vs. Trompete

Por décadas, o mundo da música foi palco de uma rivalidade acirrada entre dois dos mais nobres instrumentos de metal: o cornet e o trompete. A disputa, que se desenrolou no final do século XIX e início do século XX, não era apenas sobre qual soava melhor, mas sobre qual era o verdadeiro rei das bandas de concerto.

O cornet era o instrumento preferido para a maioria das bandas. Seu som mais suave e a agilidade nas passagens rápidas o tornavam ideal para as melodias líricas e solos virtuosísticos das marchas e dobrados.

O trompete, por outro lado, ainda era visto por muitos como um instrumento mais rude, com som mais forte e penetrante, geralmente usado para fanfarras e na orquestra sinfônica.

A Preferência de Herbert L. Clarke

Herbert L. Clarke, um dos maiores cornetistas da história, era um defensor ferrenho do cornet. Ele acreditava que o trompete era inadequado para o papel de solista e que seu som era menos expressivo. Embora ele tenha tocado trompete em orquestras sinfônicas em alguns momentos de sua carreira (incluindo na Filarmônica de Nova York), ele via o cornet como o instrumento superior para as exigências técnicas e expressivas das bandas de concerto.

Essa preferência de Clarke, um dos músicos mais influentes de sua época, cimentou ainda mais o lugar do cornet nas bandas americanas por muitos anos.

O Cornet: O Rei Indiscutível das Bandas

No auge de sua popularidade, o cornet, ou como era popularmente chamado no Brasil, o pistom, era a voz principal das bandas de música. A maioria dos virtuoses da época, como o lendário Herbert L. Clarke, não escondia seu desdém pelo trompete, que ele considerava um instrumento grosseiro e pouco refinado para os solos complexos que ele executava.

A preferência não era por acaso. O cornet tem uma tubagem mais cônica (estreita no início e mais larga no final), o que lhe confere um som mais suave, redondo e lírico. Além disso, seu formato o tornava mais ágil para passagens rápidas e melodias fluidas, características essenciais nas marchas, valsas e polcas que dominavam os repertórios das bandas.

Para os seus defensores, o cornet era o instrumento perfeito para a expressão musical, a verdadeira "voz" da melodia.

O Trompete: A Fanfarra e o Futuro

Enquanto o cornet reinava nas bandas, o trompete era relegado a um papel mais secundário. Com sua tubagem mais cilíndrica, seu som é mais penetrante, forte e claro. Por isso, ele era tradicionalmente usado em orquestras para fanfarras e passagens majestosas que exigiam um brilho sonoro marcante.

A visão de que o trompete era inferior para a melodia começou a mudar no início do século XX. O surgimento de novos gêneros musicais, como o jazz, pedia um instrumento com uma voz mais cortante e um som que pudesse se destacar em um conjunto. Foi o trompete que se mostrou ideal para essa função.

Músicos como Louis Armstrong popularizaram o trompete como um instrumento de solo de uma forma que nunca havia sido vista, mostrando ao mundo sua incrível capacidade de improvisação e expressão. Ao mesmo tempo, melhorias na fabricação do instrumento o tornaram mais ágil, desafiando a antiga supremacia do cornet.

O Veredito e o Legado

A rivalidade teve um vencedor claro: o trompete. Com o tempo, ele substituiu o cornet (pistom) como o instrumento padrão na maioria das bandas e orquestras.

No entanto, a disputa não foi sobre qual instrumento era "melhor", mas sobre qual era mais adequado para as necessidades de uma era em constante mudança.


QUIZ: https://g.co/gemini/share/6d909d89b0f9

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Fonte:

Uma Rivalidade Dourada: Corneto (Pistom) vs. Trompete. https://gemini.google.com

MATTE, Jean-Luc. Typologie des instruments à embouchure. In: JEAN-LUC MATTE. [S.l.], 2011. Disponível em: http://jeanluc.matte.free.fr/articles/typologie/typologie.htm#32322. 

PAULO CASTAGNA, F. B. e. Trombetas, Clarins, Pistões e Cornetas no Século XIX e as Fontes para a História dos Instrumentos de Sopro no Brasil. Música Hodie, Goiânia, v. 5, n. 1, 2008. DOI: 10.5216/mh.v5i1.2651. Disponível em: https://revistas.ufg.br/musica/article/view/2651. Acesso em: 23 ago. 2025.